quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A cor branca - parte 1

A parede branca. A cama com lençóis brancos, o criado branco, as outras três paredes brancas e a porta branca, nada mais. O pensamento longe, concentrado no nada, no vazio, e em todas as oportunidades que ele proporciona. Tomé estava deitado em sua cama. Só Tomé conhecia o branco.

Um grito de mulher, desesperado. Tomé sentou-se na cama, sobressaltado. Pegou o sol de frente pela janela, refletido pelos impossíveis prédios de milhares de andares, cobertos de vidro, monótonos.

- Espere – disse o gato – ainda não.

De sobressaltado, Tomé passou a quase enfartando. Um gato preto deitado no seu tapete, perto da pintura A Gare.

- Quem é você?

- Ninguém. Um amigo, provavelmente. Mas você não me conhece. A propósito, só você pode me ver. Aconselho não comentar com ninguém.

- Como assim? Eu não programei nem baixei você.

- Eu sei, no entanto, aqui estou. Estou sendo exibido direto pelo seu Elo. Só você pode me ver, mas claro, só se você quiser.

Tomé se lembrou do grito e saiu pela porta do quarto. Saiu do apartamento minúsculo procurando, e viu a porta de sua vizinha de frente escancarada. Entrou, e viu. Maria estava deitada no chão, olhos arregalados, pálida, pacotes espalhados ao seu redor. Não parecia muito plácida. Devia ter sofrido um pouco.

- Sim, está morta. Não toque nela. Assassinatos são raros, mas os azuis ainda sabem colher provas.

Chocado, Tomé se encostou na parede e deslizou até o chão. Tinha dormido com Maria uma vez, mas não tinham sentido vontade de repetir. Era bonita, mudava a cor dos cabelos praticamente todos os dias, e adorava usar plumas cor-de-rosa na roupa, meio extravagantes, mas para Tomé isso não era um problema. A falta de criatividade sim. Maria só sabia falar de seu emprego, e isso, numa sociedade que praticamente não trabalhava, demonstrava uma profunda falta de criatividade. No que trabalhava mesmo?

- Quem está transmitindo você para mim?

- Segredo – disse o gato – a morte de Maria é só o começo. Uma revolução está vindo, meu caro. Todo o Elo está vulnerável, e seu papel será relevante. Prepare-se.

- Que diabos você está falando? Tenho problemas maiores pra me preocupar agora. Suma.

E o gato sumiu.

Tomé projetou uma conexão com o serviço de emergência para comunicar o ocorrido. Algo que séculos atrás seria chamado de tela apareceu no ar, pura informação, números, palavras e imagens, projetados, levemente translúcidos desde a última mudança que Tomé fez no design. Na verdade, um homem pré-elo ficaria muito curioso ao olhar para a cena, já que nada de fato havia no ar. A informação estava sendo projetada diretamente em seu córtex visual.

A atendente já sabia o endereço e já estava mandando uma unidade antes mesmo de Tomé dar bom dia. Já tinha o endereço e os dados de Tomé antes mesmo que ele descrevesse a cena que encontrou. Já o tinha listado como testemunha e marcado a audiência antes mesmo que ele desligasse.

Voltou para seu apartamento e sentou-se em seu sofá. Chateado e intrigado, fechou os olhos enquanto ouvia os paramédicos escaneando o corpo dela, rodando a rotina de autópsia e oficializando a hora da morte de Maria. Porém, ninguém mencionou a causa mortis.

Resolveu ir até lá, e abriu a porta. Viu uma cena curiosa: Maria, sob um lençol branco, flutuava há pouco menos de um metro do chão. O paramédico tinha as duas mãos no ar, como se manuseasse algo. O resultado era muito parecido com um mágico levitando a sua assistente.

Um azul se aproximou de Tomé.

- Amigo, você que a encontrou hein? Já ia bater na sua porta. Viu algo de estranho?

Um gato preto que fala, talvez? – pensou Tomé, segurando um riso nervoso. Melhor não comentar, disse o gato. Vamos seguir o conselho do gato, isso atesta muito bem sua sanidade, Tomé.

- Amigo?

- Ah, desculpe. Não, nada de estranho, só um grito. Ela gritou, saí do meu apartamento, a porta dela estava aberta e ela estava no chão, deitada. Projetei a conexão e informei o fato. Só.

- Sei, sei.- o azul agora manuseava o ar, como o paramédico. Nada para ver também. Maldita confidencialidade, pensou Tomé. Estaria registrando “o rapaz parece suspeito”? – Eram íntimos?

- Saímos uma vez, mas atualmente éramos só amigos de elevador.

- Sei, sei. Ok. Você está intimado, já sabe não é?

- Sim, recebi o comunicado.

- Ok, a gente se vê amanha. Meu nome é Paulo, a propósito, meu cartão.

Uma projeção com os dados e a foto do detetive apareceram no meio do ar. Tomé copiou os dados com os olhos, e o cartão sumiu.

- Obrigado, amigo. Até.

- Até.

Tomé voltou para o seu apartamento, bateu a porta. Lá estava o gato de novo olhando para ele, sorrindo.

- Não sabia que gatos sorriam.

Como o gato continuou sorrindo, um pouco tolo, entrou na cozinha para pegar um copo de água.

- Tomé – disse – não posso revelar mais ainda, mas você corre perigo.

Tomé ficou com o copo d’agua na mão, somente olhando, encostado na parede. Ao seu lado, uma pintura de Deschamps, com um cachimbo e uma frase em francês.

- Vejo que você gosta de arte. Muito domínio sobre as cores, tinham esses pintores de antigamente, mesmo com métodos tão rudimentares como tinta e tela. Mas nem todas as cores eles foram capazes de dominar.

- Uns tinham mais domínio do que outros. Você é um jogo? Foi Augusto que mandou você não foi?

O gato levantou uma das patas dianteiras e a lambeu lentamente. – Você ainda não está levando a sério está? Mesmo vendo sua vizinha assassinada. O primeiro assassinato no Brasil em cinqüenta e oito anos, setenta e seis nessa megacidade.

- Assassinada, não seja ridículo. Ela deve ter tido algum problema de saúde.

- Amanhã seu interrogatório será tenso. Talvez perigoso até, para a sua saúde, eu aconselharia você a não comparecer. Mas sei que depois que eu desaparecer você vai pensar “ei, dane-se o gato estúpido, o que poderia me acontecer em uma audiência sobre uma vizinha que teve um derrame ou algo parecido?”.

- Provavelmente.

- Pois bem, cuide-se. Quando você precisar, tentarei aparecer. – disse o gato. E então sumiu.

3 comentários:

Unknown disse...

Deveras intrigante.Faz pensar se realmente foi homicídio, morte natural ou uma forma de diminuir a população?

Jamylle Bezerra disse...

Gostei do blog. Tô seguindo.

Visita o meu quando puder: www.jamyllebezerra.blogspot.com

MissUniversoPróprio disse...

Hum...muito bom. Bem o seu estilo. ;)

Seja bem vindo (ou seria bem-vindo?) ao mundo dos blogs! Excelente estréia!

=***