No quarto escuro, muito pouco se via e nada se ouvia além da inconstante respiração do homem deitado na enorme cama e alguns zumbidos característicos de aparelhos eletrônicos em sua atividade monótona e rotineira. A única luz somente se projetava de uma clarabóia solitária no teto. A respiração do homem era um som que transmitia um sentimento de cansaço, de um corpo já não tão viril e saudável quanto o de um jovem. A temperatura no quarto era quente, principalmente se comparada à temperatura nos demais ambientes do prédio, e mais ainda, à temperatura fora da cidade. Pela clarabóia era possível fitar o céu, uma imagem que em Naradan era bastante estática; nuvens densas levemente avermelhadas graças à luz oriunda da cratera cobrindo quase tudo, e onde se podia ver o espaço, uma enorme quantidade de estrelas se mostrava, e eventualmente uma das opacas luas também.
A calma trazida pela escuridão e pelo silêncio estava prestes a acabar.
O som de metal sendo rasgado pôde ser ouvido por toda a mansão, ecoando pelos corredores. Isso, contudo, não abalou o sono do homem. Depois de alguns momentos, o som se repetiu, muito mais alto e intenso do que o primeiro. E posterior a esse ruído, gritos, e explosões, além do característico som de armas laser. O alarme disparou ensurdecedor na mansão, mas no quarto, com suas paredes isoladas, era apenas mais uma suave pincelada na composição sonora da cena. O homem na cama abriu os olhos, mas a princípio não tomou conhecimento dos sons, em seu estado semi-desperto. Novamente, o som ecoou nos aposentos, agora mais próximo. Ele então finalmente acordou, e lentamente se sentou na cama. Esticou o braço e puxou para cima de seus ombros um pesado sobretudo com a insígnia de Noriad, uma roupa respeitada em todos os cantos do planeta, usada pelos Regentes de Noriad por séculos antes dele, e – pelo menos este homem gostava de pensar assim – continuaria sendo usado por milênios depois dele.
Com a dificuldade típica de membros enferrujados pela idade, o velho homem pôs-se de pé. Mesmo a idade não conseguiu retirar a aura de imponência que a figura transmitia: Alto como todos os homens de sua família – embora já bastante encurvado, no alto de seus setenta e quatro anos de idade – vestia o longo sobretudo de grosso tecido negro, com um escudo em forma de triângulo no peito, em couro vermelho, onde a insígnia de sua família aparecia trabalhado a fogo. Longas mangas cobriam as mãos do homem, assim como a barra do sobretudo cobria todo o comprimento do corpo até os pés. Pendendo de duas insígnias de metal nos ombros, uma corrente prateada se punha ao longo do peito, formando um arco. Na cabeça, além dos pesados óculos cobrindo seus olhos, apenas um gorro do mesmo material escuro e grosso cobria seus cabelos ralos e grisalhos. Toda essa vestimenta, de um estilo bem antigo, contrastava muito com a tecnologia espalhada pelo quarto, e em geral por toda Noriad.
O som da batalha se fazia mais próximo a cada momento.
De um suporte da cama retirou uma bengala, de um material agora muito raro: madeira natural. Era o símbolo do poder
Novamente o som ecoou nos corredores, agora assustadoramente perto. O homem já estava apreensivo, já que explosões e alarmes não combinavam com o pacato estilo de vida de Noriad, uma nação que mantinha uma paz comprada com sua razoável produção de Pandranium, e com a oferta de conhecimento.
Os sons chegaram à porta dos aposentos do homem. Gritos puderam ser ouvidos do quarto, pouco antes dos corpos dos soldados de sua guarda pessoal atingirem com força as portas do aposento, entreabrindo-as depois do som de disparos laser. Apreensivo, ouviu vozes vindas do corredor; entretanto eram em um idioma estranho, que Tanimar nem falava, nem nunca sequer tomara conhecimento da existência. As duas vozes iniciais se calaram quando uma terceira, sem dúvida nenhuma a voz de um líder, falou algo em tom questionador, e depois de respondido pareceu dar ordens aos dois homens.
Tanimar estava paralisado. A grande porta maciça se abriu, uma metade para cada lado, e o Regente pôde ver as três figuras driblando os corpos dos guardas para entrar no quarto. Ofuscado pela luz dos corredores, tudo que Tanimar pôde distinguir foram três vultos inumanos, dois segurando as portas, e um terceiro adentrando o aposento em passos muito decididos. As duas criaturas soltaram as portas e entraram também, um deles tocando o painel que controlava as luzes do quarto. Piscando para se adaptar à nova claridade, o homem de idade enfim pôde vislumbrar as figuras. Os três utilizavam uniformes iguais, distintos apenas pela cor, sendo os da dupla azuis, e o do terceiro homem, prateado. Cada um deles carregava uma arma de um tipo desconhecido por Tanimar; os mecanismos, porém, se assemelhavam aos das armas laser fabricadas
Ainda sem reação por causa da inusitada situação, o Regente de Noriad olhou para a mão esquerda do homem em uniforme prateado, esperando por um ataque, quando ele tocou um painel no peito de sua estranha vestimenta, e uma voz, falando no idioma de Noriad, porém com um sotaque que soava muito estranho para o velho homem saiu de um auto-falante localizado no mesmo painel:
- Regente Tanimar, nós temos agora toda Noriad sob nosso controle. Não somente a cidade-capital, mas as três cidades-satélites também. Somos numericamente superiores aos homens de sua segurança, mais organizados, e com poderio bélico imensamente maior. Quero que o senhor ordene a todos em Noriad que se rendam às nossas forças, de modo a evitar a chacina eminente. Meus homens têm ordens de exterminar qualquer tipo de ameaça a nossos planos de conquista. Noriad está a partir de agora sob domínio do exército neonaradanês e não há nada que seu povo possa fazer para mudar isso. Sua única escolha é como a nossa dominação vai ocorrer, dizimando seu povo, ou não.
Tanimar se sentiu ainda mais confuso com as ameaças, e numa tentativa um tanto quanto desesperada em dar uma resposta à altura disse:
- O território de Noriad pertence somente aos noriadianos, nossa soberania é reconhecida pelo Conselho das Quatro Nações, e seja você quem for, exijo explicações imediatas sobre toda essa situação. Não consigo imaginar que força nesse planeta poderia ser tão ousada e temerária ao ponto de invadir Noriad.
- O problema, senhor – disse o homem em prateado – é que nós não somos desse planeta.
Disparos laser cruzavam o ar em todas as direções, e o fétido odor de corpos carbonizados impregnava o gélido ar ao redor de Califar. Estava encostado atrás de uma barreira, com apenas dois de seus vinte homens junto com ele, os únicos sobreviventes da tropa que guardava o portão principal de Iad. Califar só podia imaginar se tal massacre ocorria simultaneamente em todos os portões da cidade, já que as comunicações foram desativadas completamente, antes que os primeiros disparos começassem a abater seus homens.
Nenhum alarme soou – pensou ele, e isso era no mínimo inquietante. Noriad era extremamente bem guardada. A ausência de qualquer aviso só podia significar que alguém dentro de Iad teria encoberto a invasão até o ponto crítico. Pelo menos era o que Califar pensava em seus devaneios durante os poucos instantes de silêncio entre as ondas de ataques inimigos. Os dois soldados com ele estavam atirando por sobre a barricada, enquanto Califar preparava sua arma para mais uma rodada de tiros. Podia sentir em sua mão o calor da pistola laser superaquecida, mesmo através de sua grossa luva. – Essa vai precisar de alguns segundos para resfriar – pensou ele. Colocou a pistola no coldre da direita e sacou uma outra idêntica do coldre da esquerda do seu cinturão. Levantou-se junto com os dois e percebeu que os homens em uniformes azuis estavam se aproximando cada vez mais. No espaço entre eles, Califar pode reconhecer vários dos homens da sua guarnição, porém, nenhum corpo com aqueles trajes azuis forrava o chão junto de seus companheiros - Os melhores homens de Noriad, e não conseguimos abater nenhum deles. E eu tenho certeza de ter atingido pelo menos seis disparos. – A verdade era óbvia, mas ele se recusava a acreditar. Porém, era a única explicação possível: as armas laser dos noriadianos eram totalmente ineficazes contra os estranhos trajes reluzentes.
- Estamos quase sem carga senhor – Disse o soldado à direita – temos que tentar outra coisa. Eu conto aproximadamente quarenta deles, e em segundos estaremos cercados. Alguns deles desapareceram da linha de frente, e sem dúvida já nos estão flanqueando.
Califar deu a única ordem que seu orgulho ferido poderia conceber naquela situação desesperadora:
- Ataquem até a morte. Não nos renderemos.
E embora essa fosse realmente a sua intenção, ele nunca pôde concretizá-la. Como já era de se esperar, quatro soldados inimigos, apareceram atrás deles. Um disparo atingiu Califar no peito, e uma sensação de calor percorreu todo o seu corpo; ele pensou que fosse explodir: seus ossos doíam como se arranhados por agulhas. Os pulmões simplesmente não respondiam mais ao desejo primitivo de Califar de respirar. Ele podia senti-los inflando-se, mas era como se o ar simplesmente se recusasse a entrar. Os músculos já não respondiam também. A sua visão começou a turvar, e ele pensava que a morte estava chegando para ele. E antes de fechar seus olhos, presumindo ser a última vez que veria o mundo, a última imagem que ele captou foi a visão de seus dois homens restantes sendo cortados por raios laser das armas inimigas, caindo inertes no chão ao seu lado. Já de olhos fechados Califar pronunciou de uma forma absolutamente incompreensível para os seus captores, uma única palavra, que veio à sua mente naquele momento:
- Ashanti...
2 comentários:
essa é um historia realmente envolvente... adoro!
Instigante!!!
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